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domingo, 25 de agosto de 2013




UMA PEDRA APARENTEMENTE SEM VALOR

Visitamos a nossa amiga em sua casa.A distância a que está do seu país de origem, que fica " a mais de um Oceano de caminho" , encostado ao grande Pacífico. Um outro Mar!

Naquele encontro falamos de tanta coisa, mas foi o início da conversa que mais nos marcou . Tudo girou à volta de um seixo um pouco achatado que jazia em cima de uma pequena tabua na bancada da cozinha, do qual se tinha servido para esmagar alguns condimentos para preparar saborosa refeição.

"Sabem": dizia-nos. "Quando aqui cheguei fiquei muito aflita porque na minha bagagem me faltou pôr uma pequena pedra como esta!" 

Talvez desse para ri tamanha "originalidade"! Se os sentimentos não afluíssem imediatamente à tona da pele. 

Na sua cultura este pequeno "instrumento ancestral" continuava a fazer parte não só do "ritual"! mas dos seu próprio sentir  -  parte da sua vida comungada  naquela mesa onde saboreamos também um pouco da sua cultura!

domingo, 18 de agosto de 2013

JUNTOS...

Saí correndo envolta em ventos,
vagando ao redor do pensamento
entre  turbilhão de anseios.
Sem  porto de abrigo
para o meu encontro.

Asas de sonho como velas de navio.
Mãos ao leme do barco sem destino
em alterosas ondas subindo
no recolher da aurora
de um escuro abismo!...

Não pode um navegante assim
lançar amarras na solidão sem rumo.
Há que rever a vida,
procurar a rota,
rever caminhos já trilhados.
Que leve ao final de tal agrura,
o sinal da Esperança,
em Bonança Segura!
(Z.R.C)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Era uma vez...
...estávamos nos anos 50 do século passado. Teria por essa altura 7-8 anos. Anos difíceis de grande crise económica  com resquícios ainda muito dolorosos deixados pelas II Guerra Mundial.
Os bens essenciais  não eram abundantes e, desses bens fazia parte também os livros que não eram muito frequentes na maior parte dos lares portugueses.
Meu pai era um "fã" deles mas a sua humilde profissão não lhe dava muito para satisfazer esse capricho.
Mas havia na "baixa" de Lisboa diversos alfarrabistas nos quais ele passava para satisfazer um pouco as "suas curiosidades" e, uma vez por outra comprava um, por vezes, muito usado.
Uma das matérias que mais o fascinava era a Geografia. Um dia apareceu-nos com uma geografia antiga que desembrulhou de um tosco papel, editada não sei se no ano 1908 ou 1918. São datas que relaciono com esse livro por as ver em letra grande ou fundo da capa. Mas, não sei se correspondem exatamente.
Meu pai depois do jantar gostava de ler o jornal "República" que procurava sempre comprar quando as finanças familiares estavam mais folgadas. Lia o jornal em voz alta e, logo que surgia qualquer dúvida sobre um país ou qualquer coisa relacionada ia buscar o grosso volume (para mim um livro enorme) e, logo tirava as dúvidas que nos transmitia com muito prazer, lendo também alto.
Habituamo-nos a ver aquele livro como um "amigo" muito importante na nossa família que connosco se sentava à mesa no fim do dia e, que tomava também parte na "conversa".
Foi ao colo dele que pela primeira vez e nessa geografia,  vi os lindos desenhos de grandes árvores do mundo. Ele lia o nome delas e os comentários que delas havia escritos. Comecei a ganhar muito gosto por esses momentos. Todos ainda à mesa do jantar.
Um dia fiquei fascinada por uma delas. Era uma árvore com uma copa arredondada enorme e um tronco que para o cingir seriam necessárias muitas pessoas.
Por baixo dela estavam dezenas de pessoas, senão centenas e, dizia a legenda: EMBONDEIRO  -  das maiores árvores da África Austral. Debaixo delas reúnem-se os habitantes das aldeias indígenas para tomar as grandes decisões da comunidade!
Aquela imagem ficou-me para sempre na memória! Mais tarde,quando pude conviver com pessoas vindas desses lugares distantes, percebi que também debaixo delas se realizavam cultos cristãos.
Tornou-se para mim um ícone, cuja beleza protetora nos chama à contemplação e à adoração da Criação que nos cerca.

domingo, 11 de agosto de 2013

O nosso escritor José Saramago dizia ler com frequência a Bíblia. E, sabemos que a sua opinião perante os textos bíblicos  era quase sempre, de grande dureza crítica. Lembro-o muitas vezes, quando leio o Antigo Testamento e, não deixo de perceber que, como muita gente, ele pudesse ter essa opinião, embora, fosse um homem muito inteligente. Quando o profeta Ezequiel (Ez.37) descreve a sua visão do vale dos ossos não deixará de haver na mente do leitor uma imagem catastrófica. O texto tem tanta carga negativa como tudo à nossa volta parece ter  - nas sociedades que construímos e nas quais hoje vivemos em permanente sobressalto!
O profeta da visão descrita foi compelido (por Deus) a andar em redor daqueles ossos ressequidos. Visionamos o drama de um homem vagando num vale repleto de ossos sem vida e, pensamos no seu profundo sofrimento, na dor terrível experimentada, perante aquele cenário dantesco!
Mas, no mundo em que vivemos profundamente em crise, onde a mentira o engano o desgoverno de quem foi "posto" a governar campeiam, é esta visão bíblica que pode ser o paradigma de muitos acontecimentos. E, o desalento e o desencanto tomam lugar.
Se fossemos adeptos de doutrinas pseudocristãs como as da "fé e prosperidade", talvez, facilmente encontrássemos alguma explicação, embora completamente desajustada da mensagem cristã. Mas, muito contentes no nosso "faz de conta".
Mas a sensatez que nos pode ser proporcionada pela reflexão, mostra-nos que apesar da nossa fragilidade de homens e mulheres, a mensagem cristã (dum Cristianismo autêntico) só pode ser vivida com o Sopro do Espírito sobre ossos ressequidos na visão de Ezequiel.
As sombras escuras não se deixarão de ver.  É a condição humana de que fazemos parte!
Mas é nesta condição que cada cidadão (cristão ou não cristão) é desafiado a ser interventor na sociedade onde está!
Não pudemos ficar à espera de Godot! Há que tomar as decisões que os cidadãos devem tomar na intervenção à medida das suas possibilidades. Mas silenciar NUNCA!
Hoje é Domingo, um dia que de uma maneira mais forte com cristãos e cidadãos nos deve ser posta a pergunta: Que posso eu fazer para tornar o mundo de mais e maior  Justiça e de maior Paz?
A imagem terrífica do texto pode ser o ponto de partida... "... olha à tua volta e age como profeta" . A nossa sociedade (Portugal a Europa o Mundo) precisa de nós porque nós somos parte dela. E, quando lamentarmos o seu estado pensemos que temos de fazer a nossa parte. O Sopro de Espírito nos envolverá!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

SOLIDÃO QUE ECOA 

Ouve ... o vento a soprar
pelos caminhos da serra,
esventrada de nadas, e plena de tudo.
Onde o pó se levanta e envolve
o caminheiro que passa.

Na solidão do lugar,
a sombra de alguém que vai...
... leva consigo a dor,
a raiva e o sofrimento.

Dor sem medida, porque sua!
Pensa... ou simplesmente avança.
Todo o seu ser se envolve no ar,
qual mística forma que não procura
mas, que vem até ele!

O pensamento se enovela...
No passo de compassos estilhaçados
que pela vida fora o acompanharam.

Não há sorrisos, nem sombras de alvorada.
Há, o desfazer-se na simbiose do pó.
Único companheiro da caminhada solitária,
que lhe moldou a vida!

Sorri amargamente...
Como se o sorriso alcançasse alguém...

... a não ser o infinito
Para além da linha do horizonte perdido.
Como perdidos os seus passos
na cadência do ser;
ECO na imensidão da serra,
que o viu nascer!

(Z.R.C)