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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

FRAGMENTOS  -  A Escola

(cont.)




A Escola era imponente vista de fora. Lá dentro, os grandes espaços onde os corredores também se tornavam medonhos pela sua dimensão e pouca luz, tornava aquele lugar um pouco sinistro. As crianças viviam um pouco amarfalhadas com o peso lúgubre do lugar onde eram deixadas com o fino propósito de serem ensinadas, não só no ensino inerente de uma escola do então chamado Ensino Primário, mas também no ensino de outras matérias, tão comumente anunciadas pelo regime de então como fundamentais para o bom crescimento de cidadão  -  a religião, a oficial do regime político vigente, a educação moral e cívica e, as noções elementares de "economia doméstica"  transmitidas às meninas como essenciais para o papel de futuras esposas e mães  -  pondo-as num lugar de aparente destaque mas, relegando-as para um futuro próximo a...  simples servidoras, silenciosas e sem querer!

O regime educacional não dava muitas possibilidades de expressão à alegria infantil. Tinha que ser controlada essa alegria pelos pequeninos seres  já sujeitos  a sansões que, muitas vezes ou quase sempre, não compreendiam a sua razão de ser.

Mas, há sempre a dedicação de alguém que "fura" o esquema... E, a D. Idília, regente das duas primeiras classes, com a sua figura magra e esguia e olhar doce, conseguia transmitir na sua serenidade um amor protetor  e amigo que, amenizava a austeridade da professora responsável por toda a escola e a austeridade daquele lugar.

Talvez pela primeira vez, Maria tenha chorado ao ir para a escola. Estava a chegar atrasada... e, isso a deixava muito desconfortável, pois tinha sido levada pela  mãe  à Farmácia onde o farmacêutico,  homem já de alguma idade mas, atencioso bom e sábio, dava a sua opinião e prescrevia alguma pomada ou xarope para o que lhe era apresentado.  Maria tinha uma teimosa infecção no lábio  que se prolongava já ao nariz. Ir ao médico era só em último recurso. Mas sentia  terror de entrar na classe, quando todas as meninas estavam já sentadas a fazer os trabalhos impostos para aquele dia. Os seus olhares incomodavam a timidez da Maria que não se sentia bem ao ser alvo deles. A D. Mária (assim se chamava a professora) era austera mas, naquele momento veio em seu socorro enaltecendo o sentir de Maria. O que não aconteceu outras vezes,  como naquele  dia quando a propósito de um ditado chamou rudemente a atenção de Maria pelo mesmo erro dado mais que uma vez. Era  um A que estava raivosamente riscado a vermelho. O discurso foi marcado pela intensidade da voz zangada.  - Pela primeira vez,  e para que aprendas,  -   dizia a D. Mária:  vais ficar de "orelhas de burro". 

A tremenda cartolina recortada com duas compridas orelhas que, profusamente era usada na cabeça das meninas,  vinha fazer a sua estreia na cabeça da Maria. Maria soluçava. Não tanto pela humilhação que essa, até podia ser  tomada como solidariedade a tantas outras meninas com as quais a D. Mária usava e abusava de tal gesto.  Mas, porque entre  ralhos e gritos a explicação de "tamanha falta"  continuava sem compreensão na sua mente . - Cem vezes! Vais ter de escrever o A com H para aprenderes ...

Porquê tanta imposição?  O H não se lia... Porque que é que ele ali tinha que ser posto?

As cem vezes foram cumpridas mas, o terror de não saber o porquê de tanta tempestade juntava-se  ao espaço daquele edifício, tenebroso e sombrio. Em cochicho, atrás de cochicho, Maria procurava saber entre as companheiras o que tudo aquilo se resumia. Mas sem sucesso! Parecia que ninguém sabia! Foi longa e penosa aquela caminhada.  E,  se de novo o H deixar de ser posto onde era exigido?

A felicidade era sempre interrompida por uma tempestade levantada pelo erro no ditado ou a conta mal multiplicada. Nem o "recreio" era saboroso nesse dia. A paz interior tinha sido magoada. Mas, na mente de Maria não havia ressentimentos. Ela nasceu para ser feliz como todas as crianças! O seu berço não era de ouro, mas era protegida pela família onde se sentia amada e,  tudo se tornava bonito por isso. Só não gostava de casa sombrias, mesmo pequeninas que fossem como a sua. As janelas fechadas deixavam-na triste porque a felicidade é "... deixar a luz do céu entrar..." como dizia aquele hino cantado na igreja e, que ela simplesmente associava à luz do astro-Sol.

Afinal, era bom andar na escola a aprender... mas, tinha os seus revesses o saber!

Os crescidos... será que tinha sido pequeninos... ? Se calhar não! E, aparentemente sem explicações as dúvidas começavam a surgir em catadupa cada vezes mais no espírito de Maria. 

O seu corpo longo e delgado crescia e a sua mente tornava-se combativa...


(cont.)




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

FRAGMENTOS - Do mundo rural à grande cidade


















Do mundo rural à grande cidade

Maria nasceu naquele dia frio e cinzento de Dezembro nos meados do século XX.
Há muitos anos que não nevava na região, mas naquele Dezembro a neve apareceu como que anunciando a pureza de mais um entre entre muitos nascimentos de criança.

A época era má, ouvia-se dizer. A II Guerra Mundial ainda não tinha terminado. A devastação era muito grande, as "feridas" enormes.
A terra era ingrata para todos aqueles que dela viviam. A fome rondava muitas famílias. Os "pedintes" passavam mendigando pão. Na aldeia ninguém negava um naco de pão cozido todas as semanas e um "gole" de azeite.


Emigrar para longe também não era fácil. O desconhecido e a incerteza bailavam no espírito de muitos. Alguns, mesmo assim, iam à aventura não arriscando mais do que a cidade ou vila mais próxima.

As crianças, muitas delas, nasciam como naquele dia a Maria, com o pai longe que procurava rumo diferente para a família que ia aumentando.  Somente a "comadre tecedeira" estava presente para ir "buscar os meninos ao céu" como com ironia dizia. Não era fácil buscar socorro de outra maneira, nem mesmo para "entalar um pé" ou um ombro deslocado! A interioridade da região era marcada profundamente  pela pobreza económica e cultural  do país. Dum país onde uma ditadura , cada vez mais, espartilhava o saber e a audácia.

E, as crianças, essas iam nascendo e crescendo... Aqui e ali, alguém ia tentando cortar o cerco, traçar novos rumos, fugir com os seus daquele terrível cenário onde, o presente se cruzava com o passado e o futuro ignoto. 

Para os que conseguiam, tinham quase sempre, muitas barreiras a transpor. A cidade era um mundo tristemente avassalador. O trabalho era duro e, muitas vezes, pouco compensador. "...triste sina a do pobre...", cheio de fragilidades à nascença  -  cantavam os "ceguinhos" à beira das esquinas vendendo a sua música de acordeon e, os seus versos com rimas de "pé quebrado", paisagem cheia de humilhação e sofrimento!

E os meninos que deixavam a aldeia onde tudo era seu até ao céu,  viam resumido o seu espaço dentro da cidade entre prédios gigantescos para o seu tamanho e o sonho de liberdade e, as paredes da casa encontrada,  não para as totais necessidades da família mas, pelas restrições apertadas de um orçamento familiar que exigia tanto encargo.

Mas, as crianças nascem como a pureza da água que deixa a nascente. Mesmo que o dia seja triste e cinzento como naquele Dezembro nada fará contrapor esta certeza: as meninas  e os meninos  deste mundo nascem com direito a serem felizes!...

Maria, sabia por intuição infantil que, isso era verdade. Ela nasceu para ser feliz! Ainda não tinha encontrado o terror do mundo mau que, não era o das histórias dos livrinhos de bonecos a preto e branco ou coloridos... o outro, o verdadeiro, viria  a encontrar depois.


Tanta interrogação !...

O mundo de interrogações surge a cada passo na alma de cada criança, marcado quase como estigma : Se há tanta coisa boa, porque razão as meninas  e os meninos da escola não levam todos pão na lancheirinha? Alguns nem lancheirinha ou cestinho tinham.

Valia-lhes a sopa de cheiro intenso com um naco de pão escuro que lhe era entregue à hora do almoço. Talvez, essa fosse a única refeição capaz desse dia para muitos. Os outros meninos mais afortunados, dentro dessa mesma pobreza ainda não conseguiam vislumbrar a diferença que já ali acontecia!

Pelo caminho... ficavam alguns. O seu corpinho pequeno e frágil não conseguia superar tanta injustiça. Afinal, não nascem todas as crianças para serem felizes? Aqueles pequenos "envólucros" que eram levados "para aquele lugar estranho" não levavam mais do que profundas injustiças contra quem nasceu para ser feliz. Na estrada para o cemitério só se ouvia o choro angustiado do amor profundamente dolorido.

Os carreirinhos das formigas, e as borboletas deixavam de ter encanto naquela hora, porque muito desse encanto, fora levado pelo olhar caminho acima, num cena fortemente marcante e inexplicável  para a mente duma criança!

Logo adiante, a vida retomava o seu ritmo. As perguntas, essas continuariam a assumir um lugar cativo na mente dos que nasceram para ser felizes  -  todas as crianças!

Maria.... ó Maria... vem cá fazer um recado. .. cuidado não vás muito à borda da estrada, nem vás com ninguém que te chamar... não te demores porque fico em cuidados...

Afinal, a pureza do olhar e do sentir começavam a ficar nublados pelo peso de tanta recomendação e tanta responsabilidade. Porquê? E, a mãe repetia a mesma frase com insistência como que a exorcizar o mal.

Ah! como o rio corre veloz para o mar! E, o mar esse, mostra em dias tranquilos ou de tempestade os reflexos de uma Criação espelhados no olhar de uma criança como as sombras das montanhas cobertas de floresta sempre em mudança. E, é nesta síntese tão real e poética e profundamente espiritual que as crianças têm direito a crescer e ser amadas. O Eterno nasce com cada  uma delas. Mas o bem e o mal também fazem parte da vida de cada uma!

Um dia, Maria começou a tomar mais conta dessa realidade. Era necessário lutar... afinal a felicidade conquista-se. Mas contrariamente ao desejado, muitas vezes,  só é conseguida com a dor. Mas, como é que a dor pode dar lugar à felicidade? Realidade difusa e confusa para a mente de uma criança...

(cont.)







segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

DIA DE REIS 2014 !

                           
"Levanta-te, resplandece, porque já vem a tua luz, e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti"
                                                                                    (Isaías 60.1)


                                    ORAÇÂO



Senhor,
Sem Ti, não sabemos traçar a rota;
Encontrar o sentido do Alvor,
Porque as bombas suicidas,
Troam em nós !
As catástrofes, o terror e o medo
nos tolhem.
Vamos em partida,
sem vislumbrar a chegada!
Vazios da Esperança
anunciada em Ti.

Subverte, Senhor, este langor,
Tácito de morte, sem Ressurreição!
Traça o caminho em cada passo
Do povo que clama,
para Te encontrar, Senhor!

Mudando em nós;
Tudo mudando!
Subvertendo o frio esgar da morte;
Em ESPERANÇA!
Pela Palavra anunciada e partilhada!

Quais Magos pagãos
Que mudaram de caminho
Ao encontrar o Menino / Salvação
Sinal Divino de Deus Incarnado.

Transforma as nossas vidas,
Em Tua Habitação!

Z.R.C.