Era uma vez...
...estávamos nos anos 50 do século passado. Teria por essa altura 7-8 anos. Anos difíceis de grande crise económica com resquícios ainda muito dolorosos deixados pelas II Guerra Mundial.
Os bens essenciais não eram abundantes e, desses bens fazia parte também os livros que não eram muito frequentes na maior parte dos lares portugueses.
Meu pai era um "fã" deles mas a sua humilde profissão não lhe dava muito para satisfazer esse capricho.
Mas havia na "baixa" de Lisboa diversos alfarrabistas nos quais ele passava para satisfazer um pouco as "suas curiosidades" e, uma vez por outra comprava um, por vezes, muito usado.
Uma das matérias que mais o fascinava era a Geografia. Um dia apareceu-nos com uma geografia antiga que desembrulhou de um tosco papel, editada não sei se no ano 1908 ou 1918. São datas que relaciono com esse livro por as ver em letra grande ou fundo da capa. Mas, não sei se correspondem exatamente.
Meu pai depois do jantar gostava de ler o jornal "República" que procurava sempre comprar quando as finanças familiares estavam mais folgadas. Lia o jornal em voz alta e, logo que surgia qualquer dúvida sobre um país ou qualquer coisa relacionada ia buscar o grosso volume (para mim um livro enorme) e, logo tirava as dúvidas que nos transmitia com muito prazer, lendo também alto.
Habituamo-nos a ver aquele livro como um "amigo" muito importante na nossa família que connosco se sentava à mesa no fim do dia e, que tomava também parte na "conversa".
Foi ao colo dele que pela primeira vez e nessa geografia, vi os lindos desenhos de grandes árvores do mundo. Ele lia o nome delas e os comentários que delas havia escritos. Comecei a ganhar muito gosto por esses momentos. Todos ainda à mesa do jantar.
Um dia fiquei fascinada por uma delas. Era uma árvore com uma copa arredondada enorme e um tronco que para o cingir seriam necessárias muitas pessoas.
Por baixo dela estavam dezenas de pessoas, senão centenas e, dizia a legenda: EMBONDEIRO - das maiores árvores da África Austral. Debaixo delas reúnem-se os habitantes das aldeias indígenas para tomar as grandes decisões da comunidade!
Aquela imagem ficou-me para sempre na memória! Mais tarde,quando pude conviver com pessoas vindas desses lugares distantes, percebi que também debaixo delas se realizavam cultos cristãos.
Tornou-se para mim um ícone, cuja beleza protetora nos chama à contemplação e à adoração da Criação que nos cerca.
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