Fundo
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
"Ti Helena"
Pequenina na sua saia e blusa, avental bem lavado, lenço traçado na nuca, cujas pontas subiam até ao cima da cabeça, salvo aos domingos quando se encaminhava para a missa, cujas pontas do lenço desciam sobre os ombros como "sinal" de respeito!
No seu sorriso contagiante que lhe saltava no olhar tornava-a ainda mais marcante para a criança que eu era.
Vivia numa casa cheia de magia... ao fundo da aldeia, quase junto à escarpa do monte.
Na grande sala de entrada (!?) ocupada quase por um único objeto que me encantava - estava o tear!
Era a tecedeira da aldeia. Os seus pés "dançavam" sobre duas tábuas a ritmo que parecia música enquanto as suas mãos e braços lançavam o "fio de farrapos" de lado a lado, tecendo em matizado constante, as mantas que aconchegariam nos dias frios os corpos cansados e doridos de tantos!
Era irresistível não ficar pasmada perante tal cenário - a "criação colorida" que a pouco e pouco surgia em largos panos.
Um dia, com um carinho contido surpreende-me, com afirmação ousada, para a mente de uma criança: - "sabes, fui-te buscar ao céu!"...
Buscar-me ao céu? Se o céu fica lá tão alto. E, eu não sabia que havia gente para lá ir buscar!
Silenciei tamanha expectação. E, durante muito tempo pensei o que era aquilo que a "Ti' Helena Gaiata" queria dizer de mim: "buscar-me ao céu?"
"Vai com Deus comadre" dizia a minha avó quase em simultâneo com o "vai com Deus" dela, quando com ela, se cruzava pelo caminho. Já tinha ouvido minha avó dizer que ela era ainda nossa prima. Não admirava, na aldeia todas as famílias na época se entrecruzavam ficando sempre com um grau de parentesco. Mas, isso dela me ter ido buscar ao céu... não me saia da cabeça.
Um dia, mais uma vez as comadres se encontraram, e pararam trocando opiniões sobre os trabalhos de agricultura a fazer. Eu, silenciosamente as ouvi. Caminho fora, com a minha avó, não me contive na minha timidez e perguntei: - avó, a "Ti Helena" disse-me que me foi buscar ao céu!?
Minha avó não me deixou por muito tempo "inquieta" e explicou-me - sabes, ela ajudou-te a nascer!
Afinal, o enigma era ela ter sido a "parteira"!
Ainda naquela época, eram as mulheres "curiosas" que faziam aquilo que já ancestralmente de geração em geração lhes tinha sido "ensinado", no meio rural pobre e abandonado, em que se encontravam.
Estas mulheres, deixaram marcas na dádiva de si! SIM, "buscar ao céu" era a "honra" que as fazia ter no olhar a alegria ao ver as crianças e, outros já adultos, que lhes "caíram" no regaço no primeiro choro, e, a quem desejavam os maiores sorrisos para a vida!
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