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domingo, 27 de outubro de 2013

OLHARES QUE SE CRUZAM...

"... a luz do corpo é o olhar. De sorte que, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo terá Luz" 

     Aquele olhar fixava-se cada manhã, bem cedo, na figura de mulher que todos os dias àquela mesma hora descia a calçada. Era uma figura peculiar. Airosa, mas algo frágil na sua aparência. Com os passos sincopados de quem tem sempre determinação em tudo o que realiza.
     Toque, toque, toque... o som de outros sapatos nas pedras da rua vão-se misturando com os daquela mulher que simplesmente parece esvoaçar, quase sem som, como que pedindo licença para avançar.
     Os dias passavam. O Inverno frio e chuvoso deu lugar a uma Primavera plena de alarido das andorinhas nos beirais dos telhados dos prédios mais que centenários da cidade velha. E os sons das primeiras horas da alvorada misturavam-se com as ideias em catadupa em espaço sideral dos milhares de transeuntes que por aquela calçada, por ruas e ruelas se cruzavam nas mais diferentes direções.
     Mas, aquele olhar vai-se cada vez mais tornando de uma curiosidade intensa, talvez, pelas contradições que aparentemente parece ter aquela personagem feminina.
     A imaginação ganha asas, inventa histórias, cruza ideias e ideais, voa mais alto que a estrela polar.
     Um dia, de novo ao avistá-la desce do seu lugar de vigia, escada abaixo quase que movido só pelo instinto, e, decide que é agora que mais do que cruzar o olhar no vazio, perseguirá até a algum ponto desconhecido a figura que tanto o inebria. Caminha apressado.
     Ao fundo da íngreme calçada aquele quase que espectro feminino entra num carro eléctrico que acaba de parar. Apressadamente, o também olhar com o corpo que o sustém entra de rompão. Dezenas de viajantes... rostos pálidos, corados, bem cuidados ou amaldiçoados pela corrosão do tempo e da vida. Aquele eléctrico carrega um pouco de tudo; entre as paixões e as iras e os amores, entre sorrisos e sulcos de rugas enigmáticas, percorre ruas e vielas, avenidas.Pára aqui, pára ali. Uns descem outros sobem.
     Aquele olhar procura não perder de vista o alvo da sua curiosidade. Mas, a multidão naquele espaço limitado comprime-se... de repente esse alvo já estava tão distante dali como toda e qualquer conjectura que ele pudesse conter.
     Sai de rompante na primeira paragem, procura a direção provável para seguir, mas já era tarde para de novo encontrar a linha do imaginário que os ligava. Perdera-se no vazio atulhado de gente. Decepção!
     Mas, impelido por uma força inexplicável, continua a caminhar. E aquele olhar, pela primeira vez, serenamente, repara então nos altos prédios da cidade antiga. As ruas estreitas e sinuosas com descidas vertiginosas e subidas que fazem arfar a cada momento. Nunca tinha reparado nos pequenos / grandes pormenores daqueles lugares. Vai parando aqui e ali... No cimo de uns degraus um homem idoso está sentado, quase estático, procurando nas mãos, talvez, a expressão daquilo que a vida nunca lhe deu tempo para ver. Pele enrugada, calos nodosos e negros, vestígios profundos e inapagáveis de trabalhos árduos, duros, quase sem sentido a não ser para auferir os parcos ganhos para sobreviver com a família. E, é aí, que os olhares que até ali se ignoravam se cruzam. Os pensamentos esses vagueiam pelos mais diferentes caminhos já traçados na vida, e onde, as asas da lembrança os fazem voar ainda, deixando renovar no intimo  as marcas da raiva, da apatia ou da gratidão que tantas vezes se fundem com a natureza humana que os concebeu.
     O cansaço do corpo que sustêm aquele caminheiro errante dá sinal.Mas é o olhar que vence para descobrir mais. Esse não se cansa, está no âmago de toda a sua interioridade e resiste; com a força que a alma lhe transmite ao som dos acordes nunca anunciados, mas intimamente sincopados que fazem mexer todas as forças da sua natureza humana, com tudo o que ela contêm.
     Talvez, pensa, o olhar vazio daquele corpo estático sentado no degrau da escadaria, apesar do desgaste físico, esteja intimamente repleto de brilho e transbordante de efusões de ternura que não demonstra e jamais foi capaz de demonstrar. A áurea réstia de sol que entre os  prédios rompe dá-lhe talvez essa imagem, no agora, como os muitos contra sensos que a vida de cada olhar encerra.
     E o olhar do caminhante continua... fixa agora as pontas dos sapatos daquele homem já desgastados; eles evidenciam e dão um ritmo estranho a todo aquele lugar num mexer descoordenado que parece não controlar. Os acordes que deles surgem nada têm a ver com os rés e os mis que juntos com os muitos fás e os sis dão sentido musical à pauta.Eles fazem parte dos muitos dós da vida que os arruinou. Sapatos tristemente gastos que protegem os pés que sustentou um corpo dorido sobre o qual o olhar de um e de outro se cruzam.
     À medida que avança, o olhar do caminheiro saído com rumo, depressa ficou de novo perdido. aquele caminheiro não é mais que um entre muitos outros, caminheiros errantes, nas muitas estradas ignotas da vida, cruzando-se continuamente com outros seus iguais, carregando consigo um único dilema: como encontrar resposta às muitas questões que o dia a dia levanta e, encontrá-las entre ruas e vielas da cidade, ou por montes e vales de lugares ainda por desbravar, mas sempre na profusão dos olhares que se entrecruzam, olhares que se misturam com o riso e as lágrimas de outros. Um caminheiro que nunca vai só. Porque se interroga a cada momento!
     Rapidamente, aquele olhar desceu mais escadinhas, calcorreou becos entre velhos e majestosos edifícios seculares, alcançou vielas, viu portadas abertas e fechadas, ouviu risos de alegria de crianças brincando, choros, ralhos e gritarias, até que chegando à zona ribeirinha pode mergulhar naquele imenso rio junto à foz. Ao longe o mar qual doce horizonte a delinear a paz ambicionada nas interrogações nascidas a cada momento.
     A inquietação deste sentimento revolveu-lhe todo o seu ser. Paz?
     Olhou os barcos que ligavam as duas margens. Prenhes  de gente que com o seu colorido se juntava ao imenso horizonte do olhar destemido que tinha atravessado a urbe.
     Pousou  na larga amurada do cais. E, um a um, cada ponto naquele vasto navio de travessia começou a ter uma história, uma vida. Confortavelmente, ainda que o corpo o não pudesse dizer, aquele olhar cingiu todo o espaço, indo até para lá da linha do horizonte. Cada olhar de quem passava, cada gesto de quem se movia, cada aragem que o surpreendia junto com o odor a maresia tornava-se em Universo cheio de tanto e de tão pouco, mas que o abarcava profunda e espiritualmente naquele instante na ferocidade e no instinto de viver.
     Em cada sinal de gente, um abalo telúrico!Com os sons que ecoam para além do nascer do dia ou do declinar da noite, na aragem indescritível que passa num sussurro pleno de consciência indefinível de uma história com dramas e com vitórias...
     De repente os olhos ficaram turvados de lágrimas. Não as pode conter!
     Agora, esse olhar pôde almejar  mais longe que a linha do horizonte perdido para lá do oceano. E, sonhar... sonhar...numa sofreguidão mística como num encontro entre dois corpos que se amam...
     Pensou no poeta  -  " o sonho comanda a vida..." . Estremeceu na profusão do alcance do simples olhar no espaço vazio e pleno de multidão a cruzar outros olhares. Onde, algo mais que o aqui e o agora cerca e envolve. E, leva a soltar as amarras que levam a sonhar com um só olhar entre multidões de sombras e na solidão que cercam o Universo e o atravessam para além dele!
     Onde, cada ser tem uma história, tão íntima e tão profundamente singular. Onde o humano e o Divino se fundem num hino revolto e sereno, pleno de encantamento que só a comunhão de olhares que se interrogam podem encontrar!



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