Do mundo rural à grande cidade
Há muitos anos que não nevava na região, mas naquele Dezembro a neve apareceu como que anunciando a pureza de mais um entre entre muitos nascimentos de criança.
A época era má, ouvia-se dizer. A II Guerra Mundial ainda não tinha terminado. A devastação era muito grande, as "feridas" enormes.
A terra era ingrata para todos aqueles que dela viviam. A fome rondava muitas famílias. Os "pedintes" passavam mendigando pão. Na aldeia ninguém negava um naco de pão cozido todas as semanas e um "gole" de azeite.

Emigrar para longe também não era fácil. O desconhecido e a incerteza bailavam no espírito de muitos. Alguns, mesmo assim, iam à aventura não arriscando mais do que a cidade ou vila mais próxima.
As crianças, muitas delas, nasciam como naquele dia a Maria, com o pai longe que procurava rumo diferente para a família que ia aumentando. Somente a "comadre tecedeira" estava presente para ir "buscar os meninos ao céu" como com ironia dizia. Não era fácil buscar socorro de outra maneira, nem mesmo para "entalar um pé" ou um ombro deslocado! A interioridade da região era marcada profundamente pela pobreza económica e cultural do país. Dum país onde uma ditadura , cada vez mais, espartilhava o saber e a audácia.
E, as crianças, essas iam nascendo e crescendo... Aqui e ali, alguém ia tentando cortar o cerco, traçar novos rumos, fugir com os seus daquele terrível cenário onde, o presente se cruzava com o passado e o futuro ignoto.
Para os que conseguiam, tinham quase sempre, muitas barreiras a transpor. A cidade era um mundo tristemente avassalador. O trabalho era duro e, muitas vezes, pouco compensador. "...triste sina a do pobre...", cheio de fragilidades à nascença - cantavam os "ceguinhos" à beira das esquinas vendendo a sua música de acordeon e, os seus versos com rimas de "pé quebrado", paisagem cheia de humilhação e sofrimento!
E os meninos que deixavam a aldeia onde tudo era seu até ao céu, viam resumido o seu espaço dentro da cidade entre prédios gigantescos para o seu tamanho e o sonho de liberdade e, as paredes da casa encontrada, não para as totais necessidades da família mas, pelas restrições apertadas de um orçamento familiar que exigia tanto encargo.
Mas, as crianças nascem como a pureza da água que deixa a nascente. Mesmo que o dia seja triste e cinzento como naquele Dezembro nada fará contrapor esta certeza: as meninas e os meninos deste mundo nascem com direito a serem felizes!...
Maria, sabia por intuição infantil que, isso era verdade. Ela nasceu para ser feliz! Ainda não tinha encontrado o terror do mundo mau que, não era o das histórias dos livrinhos de bonecos a preto e branco ou coloridos... o outro, o verdadeiro, viria a encontrar depois.
Tanta interrogação !...
O mundo de interrogações surge a cada passo na alma de cada criança, marcado quase como estigma : Se há tanta coisa boa, porque razão as meninas e os meninos da escola não levam todos pão na lancheirinha? Alguns nem lancheirinha ou cestinho tinham.
Valia-lhes a sopa de cheiro intenso com um naco de pão escuro que lhe era entregue à hora do almoço. Talvez, essa fosse a única refeição capaz desse dia para muitos. Os outros meninos mais afortunados, dentro dessa mesma pobreza ainda não conseguiam vislumbrar a diferença que já ali acontecia!
Pelo caminho... ficavam alguns. O seu corpinho pequeno e frágil não conseguia superar tanta injustiça. Afinal, não nascem todas as crianças para serem felizes? Aqueles pequenos "envólucros" que eram levados "para aquele lugar estranho" não levavam mais do que profundas injustiças contra quem nasceu para ser feliz. Na estrada para o cemitério só se ouvia o choro angustiado do amor profundamente dolorido.
Os carreirinhos das formigas, e as borboletas deixavam de ter encanto naquela hora, porque muito desse encanto, fora levado pelo olhar caminho acima, num cena fortemente marcante e inexplicável para a mente duma criança!
Logo adiante, a vida retomava o seu ritmo. As perguntas, essas continuariam a assumir um lugar cativo na mente dos que nasceram para ser felizes - todas as crianças!
Maria.... ó Maria... vem cá fazer um recado. .. cuidado não vás muito à borda da estrada, nem vás com ninguém que te chamar... não te demores porque fico em cuidados...
Afinal, a pureza do olhar e do sentir começavam a ficar nublados pelo peso de tanta recomendação e tanta responsabilidade. Porquê? E, a mãe repetia a mesma frase com insistência como que a exorcizar o mal.
Ah! como o rio corre veloz para o mar! E, o mar esse, mostra em dias tranquilos ou de tempestade os reflexos de uma Criação espelhados no olhar de uma criança como as sombras das montanhas cobertas de floresta sempre em mudança. E, é nesta síntese tão real e poética e profundamente espiritual que as crianças têm direito a crescer e ser amadas. O Eterno nasce com cada uma delas. Mas o bem e o mal também fazem parte da vida de cada uma!
Um dia, Maria começou a tomar mais conta dessa realidade. Era necessário lutar... afinal a felicidade conquista-se. Mas contrariamente ao desejado, muitas vezes, só é conseguida com a dor. Mas, como é que a dor pode dar lugar à felicidade? Realidade difusa e confusa para a mente de uma criança...
(cont.)
Pelo caminho... ficavam alguns. O seu corpinho pequeno e frágil não conseguia superar tanta injustiça. Afinal, não nascem todas as crianças para serem felizes? Aqueles pequenos "envólucros" que eram levados "para aquele lugar estranho" não levavam mais do que profundas injustiças contra quem nasceu para ser feliz. Na estrada para o cemitério só se ouvia o choro angustiado do amor profundamente dolorido.
Os carreirinhos das formigas, e as borboletas deixavam de ter encanto naquela hora, porque muito desse encanto, fora levado pelo olhar caminho acima, num cena fortemente marcante e inexplicável para a mente duma criança!
Logo adiante, a vida retomava o seu ritmo. As perguntas, essas continuariam a assumir um lugar cativo na mente dos que nasceram para ser felizes - todas as crianças!
Maria.... ó Maria... vem cá fazer um recado. .. cuidado não vás muito à borda da estrada, nem vás com ninguém que te chamar... não te demores porque fico em cuidados...
Afinal, a pureza do olhar e do sentir começavam a ficar nublados pelo peso de tanta recomendação e tanta responsabilidade. Porquê? E, a mãe repetia a mesma frase com insistência como que a exorcizar o mal.
Ah! como o rio corre veloz para o mar! E, o mar esse, mostra em dias tranquilos ou de tempestade os reflexos de uma Criação espelhados no olhar de uma criança como as sombras das montanhas cobertas de floresta sempre em mudança. E, é nesta síntese tão real e poética e profundamente espiritual que as crianças têm direito a crescer e ser amadas. O Eterno nasce com cada uma delas. Mas o bem e o mal também fazem parte da vida de cada uma!
Um dia, Maria começou a tomar mais conta dessa realidade. Era necessário lutar... afinal a felicidade conquista-se. Mas contrariamente ao desejado, muitas vezes, só é conseguida com a dor. Mas, como é que a dor pode dar lugar à felicidade? Realidade difusa e confusa para a mente de uma criança...
(cont.)


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