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quarta-feira, 11 de setembro de 2013



GENTE QUE ME TOCOU...

Sentadas na soleira da porta as duas mulheres, já avançadas na idade, amigas de sempre desfiavam um "rosário" de recordações...

Sorriam. Sorriso de paz em sulcos sofridos cheios de ternura como foram as suas vidas no meio das tormentas. Exemplo de ser e do estar de quem nunca reclamou de pouco terem saído mais do além das fronteiras daquela aldeia espalhada no monte, descendo a colina sobre o rio que galgara em tempos passados as margens, fertilizando-as.
Recebiam de quem passava uma "saudação" que trocavam com um "vai com Deus" que, soava a "sons de anjos" ecoados no mais profundo dos seus quereres que "roçavam" o céu!

Uma vira, várias vezes, partir pela calada da noite o seu homem, que procurava refúgio entre montes e escarpas ou vales profundos, sabe Deus onde! perseguido por  quem queria calar nele os ideais de liberdade e justiça para todos. Ficando ela no silêncio da inquietação marujando nas hortas que cultivava para sustentar a família. Com dor... silenciosamente só!

A outra, a quem cedo lhe "fugiu" o colo aconchegante da mãe, viu-se rodeada de um rancho de irmãos, tendo depressa aprendido a não cruzar os braços quando pela primeira vez se meteu a amassar o pão necessário para a semana. Da sabedoria ancestral aprendeu o valor de cada planta que sabiamente colhia, secava e guardava em pequenas bolsas que  distribuía com recomendações a quem chegava pedindo ajuda. Era a "farmácia" possível,  para aliviar o sofrimento que um "catarro" ou uma ferida  atormentava... A sua "filosofia de vida" era de uma beleza indescritível. O pobre que batesse á sua porta não partia sem levar um gole de azeite e um pedaço de pão. Sentido do Evangelho que nela habitava.

Já não corriam os caminhos pedregosos e sinuosos entre pinhais para as hortas  carregando à cabeça grandes cestos que mais pesados traziam com o produto do seu afã. Mas, continuavam espalhando sempre ecos do seu bem querer nas mesmas saudações numa espiritualidade que as ligava da terra ao céu : "vai com Deus", "Deus te acompanhe", saúde"...

Da soleira daquela porta, continuava a partir para todos os que passavam, um hino de gratidão à vida! Num gesto tocado de reverência por quem na sua humildade soube viver deixando marcas para tornar o mundo melhor, mais humano e puro... porque mais autêntico!

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